… dois poemas de RICARDO REIS …

Poesia Fernando Pessoa“Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (tinha nascido, sem que o soubesse, o Ricardo Reis).”

Diz Fernando Pessoa na carta, de 13 de Janeiro de 1935, a Adolfo Casais Monteiro, que Ricardo Reis nasceu em 1887 (embora não se recorde do dia e mês), no Porto. Descreve-o como sendo um pouco mais baixo, mais forte e seco que Caeiro e usando a cara rapada. Fora educado num colégio de jesuítas, era médico e vivia no Brasil, desde 1919, para onde se tinha expatriado voluntariamente por ser monárquico. Tinha formação latinista e semi-helenista.

Fernando Pessoa atribui a este heterónimo um purismo que considera exagerado e refere que escreve em nome de Ricardo Reis, “depois de uma deliberação abstrata, que subitamente se concretiza numa ode”.

[Carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 13 de Janeiro de 1935, in Correspondência 1923-1935]

Poesia Fernando PessoaÀ grande questão da indagação do sentido da existência, colocada de forma diversa por cada um deles, Reis responde como se fosse um homem de outro tempo e de outro mundo, um grego antigo, pagão a braços com o Destino. Sabe que a efemeridade é parte da condição humana, que na vida tudo passa, e sobre cada momento vivido pesa a sombra da caminhada inexorável do Tempo. Então, para enfrentar esse medo da morte, defende que é preciso viver cada instante que passa, sem pensar no futuro, numa perspetiva epicurista de saudação do “carpe diem”. Mas essa vivência do prazer de cada momento tem que ser feita de forma disciplinada, digna, encarando com grandeza e resignação esse Destino de precariedade, numa perspetiva que tem raízes no estoicismo.

Reis é, afinal, um conformista que pensa que nenhum gesto, nenhum desejo vale a pena, uma vez que a escolha não está ao alcance do homem e tudo está determinado por uma ordem superior e incognoscível. Para quê, então, querer conhecer a verdade que, a existir, apenas aos Deuses pertence? Nada se pode conhecer do universo que nos foi dado e por isso só nos resta aceita-lo com resignação, como o destino. Além disso, o medo do sofrimento paralisa-o, conduzindo-o a uma filosofia de vida terrivelmente vazia. Para Ricardo Reis, a vida deve ser conduzida com calculismo e frieza, alheia a tudo o que possa perturbar. E como tudo o que é verdadeiramente humano é intenso e perturbante.

A educação que teve criou nele o gosto pelo classicismo e é na “imitação” do poeta latino Horácio que se baseia a construção daquilo que é fundamental na sua poesia. Uma poesia neoclássica, pagã, povoada de alusões mitológicas. Enfim, uma poesia moralista, sentenciosa, contida, sem qualquer traço de espontaneidade. Cultivando preferencialmente a Ode.

Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Como neopagão, presentifica na modernidade um mundo mitológico, e toma como moral o estoicismo que visa a organização da pessoa humana, estabelecendo uma hierarquia, com a subordinação das qualidades inferiores às superiores do espírito humano, como podemos observar na Ode acima transcrita.

Tal facto explica-se porque ao atualizar a tradição literária, Reis dialoga com o passado presentificando-o. O processo mimético toma, então, a dimensão de produção, de recriação, e não de simples reconhecimento da realidade, e “a escrita e a leitura mobilizam a capacidade de diálogo com o passado, do qual nem escritor, nem leitor podem se eximir” (Marins, 2001, p. 174).

Os deuses de Ricardo Reis simbolizam o presente eterno e igualam-se à natureza e aos homens através da sua multiplicidade, havendo entre eles perfeita harmonia, uma vez que o homem que queira ascender à divindade passa por um processo evolutivo sobre-humano, igualando-se desta forma aos deuses. Os deuses sentem, amam, criam e pensam como os homens, e concedem só aquilo que estão dentro de suas próprias limitações, daí o fato do homem ser seu próprio mediador.

Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afetos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.

 

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