FERNANDO PESSOA – O POETA PLURAL

A 13 de junho de 1888, às 15h20,  nascia Fernando António Nogueira Pessoa, no Largo de São Carlos:

Há entre mim e o mundo uma névoa que impede que eu veja as coisas como verdadeiramente são – como são para os outros.

Fernando Pessoa

Expoente máximo da modernidade poética portuguesa, reúne sob sua tutela poetas diversos, assumidamente diferentes de si – as suas criações literárias. A poesia do ortónimo é marcada pela  procura incessante de uma verdade que o poeta sabe impossível de alcançar: a decifração do enigma do ser. Resta-lhe, pois, a interrogação filosófica do mistério e a angústia de saber as perguntas irrespondíveis. Resta-lhe ainda o olhar-se em espelhos de águas paradas que não lhe devolvem o rosto, e a imagem que neles encontra só lhe acrescenta solidão interior e a melancolia de saber-se um mar de sargaços / um mar onde bóiam lentos / fragmentos de um mar de além.

Da sua biografia, Octavio Paz, em Fernando Pessoa, o Desconhecido de Si Mesmo, afirma:

Os poetas não têm biografia. A sua obra é a sua biografia. Pessoa, que duvidou sempre da realidade deste mundo, aprovaria sem vacilar que se fosse diretamente aos seus poemas, esquecendo os incidentes e acidentes da sua existência terrestre. (..)  O seu segredo, para mais, está escrito no seu nome: Pessoa quer dizer personagem e vem de personna, máscara de atores romanos. Máscarapersonagem de ficçãoninguém: Pessoa.

E refere ainda, a este propósito:

A sua história poderia reduzir-se à viagem entre a irrealidade da sua vida quotidiana e a realidade das suas ficções. Estas ficções são (…) Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e, sobretudo, ele mesmo, Fernando Pessoa. Assim, não é inútil recordar os factos mais salientes da sua vida, na condição de se  saber que se trata das pegadas de uma sombra. O verdadeiro Pessoa é outro.

Neste contexto, centrar-nos-emos nos momentos mais significativos desta grandeza fragmentária – A minha alma gira em torno da minha obra literária – boa ou má, que seja, ou possa ser. Tudo o mais tem para mim interesse secundário (Fernando Pessoa, Cartas de Amor).

Essa obra literária começou muito cedo. Por volta dos seis anos inventa o primeiro amigo imaginário, Chevalier de Pas, tal como refere numa carta enviada a Adolfo Casais Monteiro, em 1935:

Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heterónimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente — um certo Chevalier de Pas dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade

Está, assim, criada a matriz que enformará a pluralidade poética do génio da modernidade portuguesa – Sê plural como o universo!:

Pessoa - pluralidade

Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação (…) Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outroa quem eu sou, ou a quem suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu (…) E assim arranjei, e propaguei vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje a perto de trinta anos de distância, oiçosinto, vejo. (…) Criei, então, uma coterie inexistente.

A PLURALIDADE POÉTICA:

A verdade é que o poeta não foge à fragmentação que o confronto com o seu ser plural acarreta, antes a procura, como único caminho para o encontro consigo mesmo, já que Ser é uma cadeia, / Ser eu não é ser, mas sabe que esse é um caminho sem retorn0 e que cada um dos fragmentos ou a totalidade em que a alma se estilhou jamais  lhe devolverão a unidade perdida, a identidade perdida.

Esta galeria fixada em moldes de realidade, para além de cara, estatura, traje e gesto que o poeta construia e para quem urdia uma história, configura-se em expressão poética:

COMO ESCREVO EM NOME DESSES TRÊS?

Caeiropor pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular o que iria escrever. (…) Escrevi trinta e tantos poemas a fio (…). Foi o dia triunfal da minha vida (…) Abri com o título O Guardador de Rebanhos:

Quando me sento a escrever poemas

Ou passeando pelos caminhos ou pelos atalhos

Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,

Sinto um cajado nas mãos

E vejo um recorte de mim

No cimo de um outeiro

Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,

Ou olhando para as minhas ideias e vendo meu rebanho,

E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz

E quer fingir que compreende.

(excerto)

A sua poética representa a reconstrução integral do paganismo, na  essência absoluta. Imbuída de uma dimensão natural, a sua poesia é uma espécie de expressão espontânea e quase intuitiva de pensamentos que são sensações. É, ao contrário de Pessoa, o poeta do real objetivo.

Ricardo Reisdepois de uma deliberação abstrata, que subitamente se concretiza numa ode.

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
                   (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
                   Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
                   E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
                   E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
                   Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis propõe-se e propõe-nos um duro esforço de autodisciplina. Sabe que a efemeridade é parte da condição humana, que na vida tudo passa e sobre cada momento vivido pesa a sombra da caminhada inexorável do tempo. Estamos face a uma poesia moralista, neoclássica, pagã, sentenciosa, contida, povoada de alusões mitológicas, sem qualquer traço de espontaneidade.

Álvaro de Campos quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. (…) Num jato, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal (…)

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro.
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgíllo dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinqüenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

(excerto)

Sendo o heterónimo que o poeta mais publicou, Álvaro de Campos é também o que apresenta uma evolução mais nítida:

  • os seus primeiros poemas, escritos durante a viagem ao oriente (Opiário), aproximam-se de outros poetas da viragem do século, os dacadentistas:

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.

Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.

  • mas o seu verdadeiro génio vanguardista revela-se na fase futurista (Ode Marítima e Ode Triunfal) – na exaltação da vida moderna, da força, da velocidade, das máquinas:

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro.
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgíllo dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinqüenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ode Triunfal (excerto)

  • finalmente, numa terceira fase, escreve uma poesia mais intimista:

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

(excerto)

Cada um dos universos de Pessoa é, assim, o inverso do outro:

Em qualquer destes pus um profundo conceito de vida, diverso, em todos três, mas em todos gravemente atento à importância misteriosa de existir.

Adicionar Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *